Terapia
Estou a perder na terapia. Terapia não é um jogo para se ganhar ou perder, mas mesmo assim estou a perder. Não é segredo para ninguém que o meu maior mecanismo de defesa para as desgraças que me aconteceram e que continuam a acontecer na vida é ridicularizar tudo. As tragédias da minha vida tornaram-me uma pessoa mais engraçada. Quando me acontece uma desgraça ou um azar fico logo contentinha porque sei que mais dia menos dia vou fazer uma grande piada daquilo. Isto é engraçado e ajuda-me a lidar com a merda da vida a curto prazo, mas a longo prazo é uma desgraça porque me torna uma pessoa quase insensível e que não consegue lidar com sentimentos demasiado profundos. É talvez o meu maior instinto. Se eu me esbardalhar ao comprido no chão, sou a primeira pessoa a rir em vez de chorar de dor ou vergonha. Se a minha mãe me faz mal é igual: rir é a minha melhor defesa. O “mais vale rir do que chorar” parece um mecanismo saudável de lidar com a vida, mas não é, porque fica tudo acumulado cá dentro e depois manifesta-se de forma pouco ou nada saudável. Quando não consigo arranjar forma de me rir, simplesmente desligo todas as emoções ligadas a esse trauma. Digo a mim mesma que aquilo nunca aconteceu. Basicamente fujo de tudo o que é sentimentos demasiado fortes. Não me deixo chegar a esse lugar, porque esse lugar não existe em mim. Só tenho dois lugares: o do ridículo e a fossa. Não há ali um lugar intermédio que me ajude a lidar com algumas coisas que me aconteceram. Como não quero ir à fossa, fico ali no campo do ridículo. É puro instinto de sobrevivência.
Ontem na terapia tentamos trabalhar isto. A minha psicóloga disse: “Joana, quando o assunto começa a ser mais profundo, a tua tendência é fugir, mudar de assunto, ou fazer uma piada. Sentido de humor não é o mesmo que ridicularizar tudo o que te acontece na vida. Para aprender a nadar às vezes é preciso ir ao fundo.”. Isto não é uma novidade para mim, tenho plena noção de que faço isto, mas é tão intrínseco em mim que trabalhar este ponto parece-me impossível. E ir ao fundo dá-me a sensação de que fico lá para sempre, então mais vale manter-me onde tenho pé.
Todos os textos “sérios” que eu já escrevi estão no papel escondidos para ninguém ler. Se por algum motivo vou tentar reler esses textos, das duas uma: ou sinto asco, vergonha e até fico fisicamente mal disposta, ou desisto de ler à terceira frase. Estes textos só vão ser lidos quando eu morrer, isto se não os destruir antes disso. A única pessoa que já os leu foi a minha psicóloga e foi das sessões de terapia mais dolorosas ao longo destes oito anos.
Parece contraditório eu ser capaz de partilhar com pormenores encontros que tive com diferentes homens e não conseguir partilhar outros assuntos que seriam considerados menos íntimos.
Estou a tentar aos poucos escrever textos que eu sou capaz de publicar e que sejam “sem piada” para ver o que sai. Tal como este que estou a escrever agora. E acho que sai uma grande bosta de texto. Mas é um começo para sentir que vou ganhar na terapia.
