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Jenny Pepper

Um blogue de auto-ficção. Para rir e ler com pronuncia do Norte.

Um blogue de auto-ficção. Para rir e ler com pronuncia do Norte.

Jenny Pepper

15
Ago25

Terapia

Jenny Pepper

Estou a perder na terapia. Terapia não é um jogo para se ganhar ou perder, mas mesmo assim estou a perder. Não é segredo para ninguém que o meu maior mecanismo de defesa para as desgraças que me aconteceram e que continuam a acontecer na vida é ridicularizar tudo. As tragédias da minha vida tornaram-me uma pessoa mais engraçada. Quando me acontece uma desgraça ou um azar fico logo contentinha porque sei que mais dia menos dia vou fazer uma grande piada daquilo. Isto é engraçado e ajuda-me a lidar com a merda da vida a curto prazo, mas a longo prazo é uma desgraça porque me torna uma pessoa quase insensível e que não consegue lidar com sentimentos demasiado profundos. É talvez o meu maior instinto. Se eu me esbardalhar ao comprido no chão, sou a primeira pessoa a rir em vez de chorar de dor ou vergonha. Se a minha mãe me faz mal é igual: rir é a minha melhor defesa. O “mais vale rir do que chorar” parece um mecanismo saudável de lidar com a vida, mas não é, porque fica tudo acumulado cá dentro e depois manifesta-se de forma pouco ou nada saudável. Quando não consigo arranjar forma de me rir, simplesmente desligo todas as emoções ligadas a esse trauma. Digo a mim mesma que aquilo nunca aconteceu. Basicamente fujo de tudo o que é sentimentos demasiado fortes. Não me deixo chegar a esse lugar, porque esse lugar não existe em mim. Só tenho dois lugares: o do ridículo e a fossa. Não há ali um lugar intermédio que me ajude a lidar com algumas coisas que me aconteceram. Como não quero ir à fossa, fico ali no campo do ridículo. É puro instinto de sobrevivência.

Ontem na terapia tentamos trabalhar isto. A minha psicóloga disse: “Joana, quando o assunto começa a ser mais profundo, a tua tendência é fugir, mudar de assunto, ou fazer uma piada. Sentido de humor não é o mesmo que ridicularizar tudo o que te acontece na vida. Para aprender a nadar às vezes é preciso ir ao fundo.”. Isto não é uma novidade para mim, tenho plena noção de que faço isto, mas é tão intrínseco em mim que trabalhar este ponto parece-me impossível. E ir ao fundo dá-me a sensação de que fico lá para sempre, então mais vale manter-me onde tenho pé.

Todos os textos “sérios” que eu já escrevi estão no papel escondidos para ninguém ler. Se por algum motivo vou tentar reler esses textos, das duas uma: ou sinto asco, vergonha e até fico fisicamente mal disposta, ou desisto de ler à terceira frase. Estes textos só vão ser lidos quando eu morrer, isto se não os destruir antes disso. A única pessoa que já os leu foi a minha psicóloga e foi das sessões de terapia mais dolorosas ao longo destes oito anos.

Parece contraditório eu ser capaz de partilhar com pormenores encontros que tive com diferentes homens e não conseguir partilhar outros assuntos que seriam considerados menos íntimos.

Estou a tentar aos poucos escrever textos que eu sou capaz de publicar e que sejam “sem piada” para ver o que sai. Tal como este que estou a escrever agora. E acho que sai uma grande bosta de texto. Mas é um começo para sentir que vou ganhar na terapia.

06
Jul25

Ler

Jenny Pepper

 

Ler é das coisas que eu mais gosto de fazer na vida. Foi sempre uma coisa que nunca me foi recusada. O meu pai levava-me a livrarias, alfarrabistas e à falecida feira do livro do Porto dentro do Palácio de Cristal e nunca me negou um livro. A feira do livro que temos actualmente a acontecer no Porto é das coisas que mais me deixa deprimida de tão pobrezinha que é comparada com o que já foi quando eu era criança. Houve um ano em que a minha professora Paula me levou à feira e me ofereceu o O Principezinho e eu nunca mais me vou esquecer da alegria que foi receber aquele livro. Claro que quando o li não percebi quase nada, mas a sensação de alegria e conforto que eu senti a receber e a folhear aquele livro permanecem até hoje. Nunca me vou esquecer de quando a minha amiga Maria Anita me emprestou o primeiro Harry Potter. Livros que me acompanharam ao longo da minha infância e adolescência e que eu li e reli até à exaustão. Também nunca me vou esquecer de quando o meu pai correu todos os alfarrabistas do Porto para encontrar uma versão traduzida do Guerra e Paz para me oferecer, uma versão em dois volumes que tem o nome do autor traduzido para Leão Tolstoi. Ou das vezes que ele me levou à meia noite para a Fnac da Santa Catarina, paz à sua alma, para o lançamento do novo Harry Potter. Tenho uma péssima memória, mas nunca me esqueci dos livros que me foram oferecidos e quem mos ofereceu. Adoro comprar livros, mas recebê-los de um amigo é uma sensação muito diferente, porque é uma partilha muito íntima. É um livro que sabes que alguém que tu gostas também gosta e que vais ter com quem falar sobre ele quando o acabares de ler.

Acho que sempre percebi a importância de saber ler. A minha avó, que era analfabeta, levava-me a comer bifanas ao Porto e pedia-me para ler coisas por ela e lembro-me da sensação estranha que era estar com um adulto que era responsável por mim mas que não sabia fazer uma coisa tão essencial como ler. Perdi a conta das capas de revistas que eu li à minha avó. Não sei se gostava mais disso ou se gostava mais das bifanas. E eram bifanas do Conga, paz à sua alma também. As bifanas do Conga actual são uma coisa horrenda. Actualmente se quiserem comer uma boa bifana é na Casa das bifanas em Valongo, n’O Astro em Campanhã, ou em minha casa. O homem faz umas bifanas de chorar por mais. Quem já as comeu sabe que é verdade.

Isto tudo para dizer que ler é uma parte importante da minha vida. Houve anos em que estava tão deprimida que não li um único livro. Simplesmente não conseguia. Quando estava com depressão não conseguia fazer quase nada. Até tomar banho era um suplício, quanto mais ler. Houve anos em que simplesmente não tinha tempo para ler. A lembrança dos períodos em que não lia é muito infeliz para mim. Ler traz-me felicidade, conforto e saúde. E não há nada que eu queira mais nesta vida do que estas três coisas.

Gosto de ler para viajar. Há quem goste de ler para aprender, mas eu não sou esse tipo de pessoa. Leio muito, mas não me acho uma pessoa muito inteligente. E irrita-me bastante quando as pessoas acham que eu sou muito inteligente porque leio mais do que a média das pessoas. É fazer-me mais do que aquilo que eu sou. Atenção, também não me considero burra. Só acho que ‘muito inteligente’ não é uma característica que eu tenha. Eu leio para ser transportada para outro mundo que não este em que vivo. Não leio para ser inteligente. Aliás, há muita gente que nunca leu um livro na vida e que é muito inteligente. A minha avó não sabia ler, mas era numa inteligência e esperteza acima da média. Nunca recebeu um troco errado. Já eu não posso dizer o mesmo.

18
Jun25

Não monogâmica não praticante

Jenny Pepper

Uma coisa das recaídas é a ausência total de libido. Há meses que estou sem libido. Há meses que não como ninguém além do homem. A única pessoa com quem me apetece estar é o homem, porque ele conhece-me como eu me conheço. Ele sabe exactamente como me fazer chegar lá muito rápido. Ou seja, com o homem as coisas são simples. Com outros é outra história. Não tenho vontade de estar com ninguém, das opções assim à mão só há uma que não me importava de repetir, porque beija incrivelmente bem, mas é mais difícil combinar alguma coisa com ele do que arranjar reserva no Café Santiago sábado ao almoço. Então perco a paciência.
Conhecer gente nova é uma trabalheira. Até há alguns gajos decentes, mas feios, coitados, os mais bonitinhos ou são muito burros ou são frustrados com a vida. O pior é quando são burros e feios ou feios e frustrados. Não existe burro e frustrado. O burro é burro demais mais para sentir frustração. Há poucos homens decentes, com a auto-estima saudável, quase nenhum faz terapia. Uma maneira de apanhar redflags é perguntar sobre as ex namoradas. Ou perguntar sobre os filhos e perceber que não têm guarda partilhada e ainda acham que o que pagam de pensão é para sustentar os luxos da ex. O meu pipi fica mais seco do que a minha boca quando fumo ganza. Outra pergunta de filtragem de redflags é perguntar em quem votaram nas últimas eleições. Já fui insultada tantas vezes por gajos que votaram chega. São de um cavalheirismo. Imaginem explicar o conceito de não monogamia a um gajo que vota chega. É explicar a lei da gravidade a uma criança de dois anos. Ficam com medo e partem para o insulto.

Isto tudo para dizer que continuo não monogâmica, mas não praticante. A única coisa fálica em que tenho pensado ultimamente é o salame de chocolate do mercadona.

12
Jun25

Choro

Jenny Pepper

Já estive com um moço (machão, todo tatuado, a versão humana dum pitbull) que tinha um ritual de chegar ao orgasmo. Primeiro insultava-me de puta pra baixo, durante o orgasmo abraçava-me e pedia desculpa e no final chorava agarrado a mim. A primeira vez nem liguei muito porque o que esteve para trás não tinha sido assim tão mau e pensei que estivesse a viver um momento frágil, mas fomos à segunda (quem é a estúpida, quem é?) e foi exactamente igual. Aí tive de fazer a pergunta: “Mas tu choras sempre que te vens?” e ele confessou que sim, que só se consegue vir assim. Não consegui ir à terceira.

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